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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Borboletas do Ar-condicionado

O peixinho do aquário sempre nadava mais entusiasticamente quando a dona da casa chegava. Perecia que a luz do sol se fazia mais insistente na sala de estar quando ela cantava as músicas que eram sempre saudades da Terra do Açaí. O vaso com rosas azuis era o encanto enigmático dos visitantes. E o bolo de abacaxi que ela preparava todos os sábados representava a doçura do sentimento que ela nutria na timidez devoradora do seu coração. Como era feliz a dona daquela casa com varanda que vislumbrava o lago e as serras. Mas, há um Ditador que sempre transforma todo o enredo da vida. Aquele parecia o mesmo sábado de toda semana. A mesma espera ansiosa e solitária para que o silêncio de vozes e de almas fosse rompido. O mesmo amor que enaltecera, ferira e destruíra todos os casulos de esperança para que aquelas duas vidas se tornassem uma só. Quando a porta se abriu, os Olhos Verdes buscaram o olhar que se escondia naquelas pupilas escuras envoltas em varandas puxadas como nas casas de praia. Todavia, ela devotava nos seus olhos a paisagem de uma canoa naufragada no Rio Amazonas . Tudo já havia sido conversado, as malas dele estavam prontas. Ela se limitou a não querer vê-lo partir. Ouviu sons dos passos dele misturarem-se com soluços indefinidos das almas dos dois amantes. A porta se fechou e ela sentiu que cada gota do sangue que pulsava nas suas veias seguiam um caminho angustiado para o seu coração. Sentiu sufocar-se. Intencionou pedi-lo para ficar, afinal ,ela pedira para que ele partisse. Mas nessa batalha épica, os bárbaros sentimentos lançaram tantas flechas no seu peito que ela sentiu-se desfalecer. A sala ficou muda. A vida ficou em silêncio. Um silêncio que mortificava sua existência. Ela sentou-se no sofá de frente para sacada de cortinas douradas de onde se visualizava o lago e as serras. O relógio da sala parou naquele dia do mês de outubro. As rosas azuis do vaso vermelho tentaram conversar com ela durante muitos dias, até serem desfaceladas pelo vento do tempo. Uma das pétalas ainda beijou em despedida o rosto da dona da casa, antes de ser levada para correr com as gotinhas de chuva, em um desses temporais de fevereiro na cidade do eterno sol do meio dia. O peixinho do aquário resolveu aventurar-se pelo mar, mas teve o cuidado de deixar um bilhete de despedida escrito na última pétala de rosa azul que insistira em ficar deitada sobre a mesa. Nunca mais se sentiu o cheiro do bolo de abacaxi que assava ao som das melodias que ela cantava. Em um desses outubros, no feriado das crianças, bateram à sua porta. Há quanto tempo ela não esperava alguém? O relógio da sala continuava parado quando a visita entrou, sentou ao seu lado no sofá e conversou o suficiente para que ela sentisse uma tranquilidade emanada daquela voz que transmitia toda a confiança que ela precisava para se levantar. Ele lhe trazia notícias do mundo. Contou-lhe que os aviões nem sempre decolam no prazo esperado, por isso a fadiga existencial . Disse-lhe que nas noites daquele mês, a casa dele costumava ser visitada por besouros tão estranhos que pareciam monstros pré-históricos. Ela, então, sorriu diante daquela misteriosa e imprevisível visita do mês rosa. Pareciam tão agradáveis as palavras que ele dizia, tão encantadoras que ela queria conversar a noite inteira. Foi quando a última pétala de rosa azul voou lentamente para ouvir aquela conversa mais de perto. Contudo, nessa viagem ousada, um vento que era apaixonado pela pétala azul tentou raptá-la. A pétala assustada não queria deixar a dona da casa sozinha. Por isso, lutou contra o vento e se escondeu dentro do ar condicionado. A dona da casa impressionada observava a mais essa história de amor. E, temendo pela sorte, pediu à visita que libertasse aquela pétala azul. Foi quando ele, sem temer ou tituberar, tirou a tela do ar condicionado e libertou a pétala azul que voou e voltou ofegante para o vaso vermelho que estava em cima da mesa. Quem sabe se algum dia ela se sentirá mais segura e resolva viajar com o vento. Contudo, isso já é outra história para contar. A dona da casa ficou tão feliz com esse pensamento. Nesse exato momento, a visita se despediu, sem dizer se havia gostado da conversa e sem promessas de voltar. Ela o levou até a porta e planejou dizer tanta coisa, entretanto, ela simplesmente sorriu, acreditando que havia conseguido expressar toda a tranquilidade que a presença dele houvera causado. Ele descia as escadas enquanto os olhos da dona da casa se voltaram para observar que o relógio da sala voltara a funcionar. Ela olhou o calendário, quase três anos havia se passado. Meu Deus! Todo esse tempo sentada ali? Teve medo de pensar em viver diferente. Teve medo de voltar a sonhar. Mas, em um desses mistérios do Mundo de Lorelai, o sinal de que já era de voltar a viver se materializou. De repente, da tela do ar-condicionado voaram borboletas de todas as cores. Como ela voltou a se sentiu feliz! Era seu presente de aniversário. A dona da casa pediu para que eu escrevesse esse conto para agradecer à visita, porque se ele não tivesse resgatado a pétala azul da tela do ar condicionado, ela nunca iria perceber que a limpeza da alma e das lembranças fazem nascer e bailar borboletas em nossas vidas.

A formiga e o inseto – Uma história de jardim.....

A menina sentou na soleira da porta e, escondida dentro de si, ficou observando essa história que ela me pediu para contar. De trás de um galho de jasmim, que caíra no chão porque perdera uma queda de braço com o vento de setembro, apareceu um inseto bem magro, com imensas asas, pernas bem longas e com olhar desencontrado como ondas do mar no litoral. Mas de uma imponência tão encantadora que a menina quis se deter mais cuidadosamente nesse olhar. Repentinamente, uma gota de orvalho do sereno da aurora foi se desfazendo lentamente, permitindo com que a menina visualizasse uma formiguinha que pensativamente se aproximava. Ela carregava um embrulho dez vezes maior que seu peso. Interessante que, ao olhar aquela pequena senhorita no meio das folhagens, era impossível mensurar o que era maior, se o embrulho que ela carregava ou se a vastidão dos seus pensamentos. Seja como for, ela parecia tão feliz e sorridente. Quando a formiguinha se aproximou do inseto tão imponente e de pernas tão longas, ela parou para lhe contemplar como quem busca decifrar algum mistério. Foi exatamente quando ela conseguiu mergulhar no negrume do olhar daquele inseto que parecia tão fadigado, sentiu que ele tinha um céu cheio de tantas estrelas de todas as cores e idades. Contudo, mesmo com esse universo tão estrelado, ele insistia em voar sem se importar com as estrelas ou com a lua, limitando-se em voos de mãos dadas com a Solidão. A formiguinha se sensibilizou com o que viu naqueles tão negros e tão distantes olhos. Por isso, resolveu iniciar uma conversa tímida, com uma voz meio trêmula e cheia de medo de alguma reprovação. Ela, então, contou para o imponente inseto as mais belas e engraçadas histórias que ela conhecia. Foi quando ele sorriu tão estridentemente, que ela teve a certeza de que ele estava descansando sua alma e tinha pedido para a Tristeza ir tomar um cafezinho na esquina. A formiga sentiu que aumentava ainda mais os pensamentos que ela carregava. Começou a imaginar que os dois poderiam ser amigos. Por que não? Parece que ele adivinhara seus pensamentos, pois combinaram de se encontrar, no outro dia, naquele mesmo local. Despediram-se e a Formiga seguiu pensando tão comprido....... No outro dia, ela voltou ao local combinado e o inseto bem magro, com imensas asas, pernas compridas e olhar desencontrado como onda do mar do litoral apareceu. Como ela ficou feliz! Mas ele mal a cumprimentou e foi embota tão rápido que ela nem teve tempo de lhe dar o presente que havia pensado a noite toda, com tanto carinho. Sem entender o porquê de tamanha pressa, ela sentiu encurtar os seus pensamentos e seguiu o caminho do seu destino, por entre as folhas caídas que pareciam se tornar verdes só para alegrá-la. Mas antes de continuar seu destino de formiga pensativa e cheia de sonhos de ser borboleta, ela sentiu que o peso que carregava havia se tornado mais leve. Afinal, ela havia deixado para o inseto, de comportamento tão indecifrável, o pequeno presente embrulhado em papel amarelo da cor do ouro. Deixou-o bem debaixo de uma flor de jasmim adormecida. O que havia dentro do presente? Ela deixara gotinhas cristalizadas de açúcar para que ele tornasse sua vida mais doce, juntamente com a luz do coração de um vaga-lume para que ele nunca mais voasse na escuridão solitária. Quem sabe algum dia ele volta para buscar o presente? – Pensou nossa amiguinha. Contudo, acredito que ninguém nunca ficará sabendo o final dessa história. Tudo porque a menina que estava sentada na soleira da porta e observava tudo, ficou tão decepcionada com a atitude do inseto que se levantou e fechou a porta que dava para o jardim, para nunca mais abrir.

O VOO DA ILUSÃO

Na cidade de luas suicidas, parecia que a música de feriado me faria bailar a mesma dança solitária das noites de lágrimas, paixão e sonhos. Eu, sempre intensa, dialoguei com aquela noite negra e desafiadora. Afirmei que, definitivamente, não queria a previsibilidade. Queria o sonho, o voo da serpente- borboleta rumo ao infinito de desejos que clama minha alma de poetisa. Buscando viver grandes amores impossíveis que habitam meu imaginário de sentimentos, fazendo-me, diariamente, padecer de amar. Quando o vi chegar, comparei-o a Adamastor, o gigante de pedras camoniano. Sua altura, sua sisudez, seu silêncio encantador, seu olhar de farol solitário de uma deserta praia paraense. Realmente uma beleza mitológica, por isso digna somente de ser contemplada a distância. Mas pergunto a vocês? Como ficar distante do que nos atrai? No baú dos sentimentos inerentes ao meu ser, busquei a coragem para olhá-lo nos olhos, mas ela havia saído para um passeio em Taquaruçu. Como sempre, a timidez e a insegurança foram os únicos sentimentos que me abraçaram e se dispuseram a me fazer companhia naquela rua com nome de presidente. A simples presença muda dele naquele lugar fez com que tudo se transformasse em uma harmônica euforia que me fazia sorrir com o simples murmurar do vento que anunciava a madrugada. Quando ele se sentou comigo à mesa, optei por não refletir se aquilo era sonho ou realidade. Deixei-me, simplesmente, debruçar naquele encantamento sedutor que insistia em me fazer acreditar no impossível. De repente, no auge da minha timidez, as palavras pareceram fugir dos meus sentidos. Fez -se, entre nós, o silêncio que inebria os olhos do coração. Desviei o olhar para o céu, talvez buscando um assunto com as estrelas. Foi quando olhei para a constelação de Ursa maior e vi Ci, a mãe do mato que estava namorando Macunaíma. A estrela então sussurrou no meu ouvido. Dispus-me somente a comentar com ele “Linda Lua”. Imediatamente, ele respondeu “quer tocá-la?” E, em um desses devaneios que só existem no Mundo de Lorelai, ele entrelaçou suas mãos com as minhas e me convidou para fazer a viagem. E, como ele houvera me informado que a cabine fazia frio, cobri-me com meu lençol branco com bolinhas vermelhas antes de partirmos. Ele pilotou um P-51 Mustang, o mesmo avião americano utilizado na II Guerra Mundial. Literalmente ele me fez voar entre as estrelas. Contou-me dos seus desejos e, definitivamente, seduziu-me quando disse que sempre voava conversando com a Lua. E deixou que eu a tocasse, de forma tão leve, que fez com que eu acreditasse que há pessoas que, literalmente, fazem- nos sentir no ar. Mas TUDO foi tão rápido que nem tive tempo de dizer que aquela tinha sido a viagem de avião mais interessante que eu havia feito. Se não vou poder dizer o que senti pessoalmente, eternizo nesse conto o meu VOO DE ILUSÃO.

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Elienai Lorelai
Sou alguém que brinca com as palavras para redimensionar fatos da realidade. Afinal, a VIDA é muito mais linda com um toque de literatura e poesia. Boa leitura a todos!
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