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segunda-feira, 23 de abril de 2012

A formiga e o inseto – Uma história de jardim.....

A menina sentou na soleira da porta e, escondida dentro de si, ficou observando essa história que ela me pediu para contar. De trás de um galho de jasmim, que caíra no chão porque perdera uma queda de braço com o vento de setembro, apareceu um inseto bem magro, com imensas asas, pernas bem longas e com olhar desencontrado como ondas do mar no litoral. Mas de uma imponência tão encantadora que a menina quis se deter mais cuidadosamente nesse olhar. Repentinamente, uma gota de orvalho do sereno da aurora foi se desfazendo lentamente, permitindo com que a menina visualizasse uma formiguinha que pensativamente se aproximava. Ela carregava um embrulho dez vezes maior que seu peso. Interessante que, ao olhar aquela pequena senhorita no meio das folhagens, era impossível mensurar o que era maior, se o embrulho que ela carregava ou se a vastidão dos seus pensamentos. Seja como for, ela parecia tão feliz e sorridente. Quando a formiguinha se aproximou do inseto tão imponente e de pernas tão longas, ela parou para lhe contemplar como quem busca decifrar algum mistério. Foi exatamente quando ela conseguiu mergulhar no negrume do olhar daquele inseto que parecia tão fadigado, sentiu que ele tinha um céu cheio de tantas estrelas de todas as cores e idades. Contudo, mesmo com esse universo tão estrelado, ele insistia em voar sem se importar com as estrelas ou com a lua, limitando-se em voos de mãos dadas com a Solidão. A formiguinha se sensibilizou com o que viu naqueles tão negros e tão distantes olhos. Por isso, resolveu iniciar uma conversa tímida, com uma voz meio trêmula e cheia de medo de alguma reprovação. Ela, então, contou para o imponente inseto as mais belas e engraçadas histórias que ela conhecia. Foi quando ele sorriu tão estridentemente, que ela teve a certeza de que ele estava descansando sua alma e tinha pedido para a Tristeza ir tomar um cafezinho na esquina. A formiga sentiu que aumentava ainda mais os pensamentos que ela carregava. Começou a imaginar que os dois poderiam ser amigos. Por que não? Parece que ele adivinhara seus pensamentos, pois combinaram de se encontrar, no outro dia, naquele mesmo local. Despediram-se e a Formiga seguiu pensando tão comprido....... No outro dia, ela voltou ao local combinado e o inseto bem magro, com imensas asas, pernas compridas e olhar desencontrado como onda do mar do litoral apareceu. Como ela ficou feliz! Mas ele mal a cumprimentou e foi embota tão rápido que ela nem teve tempo de lhe dar o presente que havia pensado a noite toda, com tanto carinho. Sem entender o porquê de tamanha pressa, ela sentiu encurtar os seus pensamentos e seguiu o caminho do seu destino, por entre as folhas caídas que pareciam se tornar verdes só para alegrá-la. Mas antes de continuar seu destino de formiga pensativa e cheia de sonhos de ser borboleta, ela sentiu que o peso que carregava havia se tornado mais leve. Afinal, ela havia deixado para o inseto, de comportamento tão indecifrável, o pequeno presente embrulhado em papel amarelo da cor do ouro. Deixou-o bem debaixo de uma flor de jasmim adormecida. O que havia dentro do presente? Ela deixara gotinhas cristalizadas de açúcar para que ele tornasse sua vida mais doce, juntamente com a luz do coração de um vaga-lume para que ele nunca mais voasse na escuridão solitária. Quem sabe algum dia ele volta para buscar o presente? – Pensou nossa amiguinha. Contudo, acredito que ninguém nunca ficará sabendo o final dessa história. Tudo porque a menina que estava sentada na soleira da porta e observava tudo, ficou tão decepcionada com a atitude do inseto que se levantou e fechou a porta que dava para o jardim, para nunca mais abrir.

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Elienai Lorelai
Sou alguém que brinca com as palavras para redimensionar fatos da realidade. Afinal, a VIDA é muito mais linda com um toque de literatura e poesia. Boa leitura a todos!
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