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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Como realizar sonhos no novo ano

2012 se vai .....e eu preciso escrever sobre isso. Todo final de ano trazia consigo um ritual obrigatório na minha vida (e de muitas pessoas, imagino). Exatamente no dia 31 de dezembro, eu elaborava minha LISTA DE SONHOS A REALIZAR NO NOVO ANO. Não havia muita novidade bombástica. Quase sempre os mesmos desejos: Saúde, Amor, Família, Profissão, Amigos e Fé. E foi assim durante uns longos anos... Amanhã é 31, Meu Deus! Tenho que fazer minha lista.... Então, ouvi uma voz (alguns a chamam de consciência, eu prefiro chamar de DEUS) que me sugeriu “Leia o que você escreveu na sua lista no ano passado” Busquei nos meus registros antigos e comecei a ler reflexivamente, sonho por sonho. Quando finalizei, a voz me questionou “Quantos sonhos realizados em 2012?” Antes que eu respondesse, a voz concluiu “Percebeu como, ano após ano, são sempre os mesmos desejos? Se você não lutar para concretizá-los, não escreva Lista de Desejos e, sim, LISTA DE MILAGRES”. Fiquei sem palavras, diante de tanta sabedoria! Passei a refletir de forma diferente. Realmente, “como desejo, no ano de 2013, ter muita saúde, se não faço uma atividade física, se não me alimento nos horários corretos, se não cuido da minha saúde mental?” “Como desejo vivenciar um GRANDE AMOR, se procuro nos lugares errados e, previsivelmente, encontro somente pessoas erradas?” “Como desejo que minha família seja muito feliz, se sei que qualquer doença que me acometa, pela distância que me encontro dos meus familiares, trará conjuntamente um sofrimento para eles sem igual. Contudo, não consigo cuidar bem de mim. Trabalho excessivamente, sem tempo para ver um pôr-do-sol? Como posso cuidar da felicidade dos outros, se não consigo cuidar da minha? “Como posso querer equilíbrio profissional, se ainda consigo me incomodar com pessoas que não compreendem que para mim `Ser professora é uma missão de vida`. Por isso, ministrar minhas aulas com tanta dedicação e AMOR. Logo, o carinho e respeito dos alunos é consequência?” “Como posso querer um milhão de amigos, se desejo que todos os meus amigos tenham os meus gostos (ouvir rock- só ROCK, gostem de viajar, ouçam-me sempre que eu precisar, estejam disponíveis sempre). Mas atenção! No dia que eu não estiver de bom humor, não quero falar com ninguém. Então, não atendo telefonemas (nem de amigo...eu ligo depois...). Mas, se eu ligar e o amigo não me atender....amizade desfeita!” Não posso esquecer que AMIZADE é INVESTIMENTO, é TROCA, é ACEITAR AS DIFERENÇAS. E, finalmente, como posso vivenciar DEUS se nem sempre consigo “Amar o próximo como a mim mesma?” Então, sob essa nova ideologia de vida, nesse final de 2012, farei, sim, minha lista de desejos para o novo ano que se inicia. E em 2013, exatamente, no dia 31 de dezembro, eu voltarei a escrever a vocês, comprovando que sonhos sem ações concretas aguardam milagres. Mas sonhos com ATITUDE de VIDA se tornam REALIDADE! FELIZ 2013 A TODOS NÓS!

domingo, 2 de dezembro de 2012

O SOLITÁRIO DO SAMBA

Na CIDADE DE ARAM, sair à noite é um desafio. Isso porque as opções para diversão são muito restritas. Metaforicamente falando é como se você chegasse a um restaurante, lesse o cardápio e ficasse em dúvida se pede filé à sertaneja, peru à sertaneja, lasanha à sertaneja, pato à sertaneja, pizza à sertaneja ou chambari à sertaneja” Quero deixar bem claro que não tenho nada contra o molho sertanejo, acho delicioso, mas também gostaria de ver no cardápio o molho clássico, o molho forró, o molho baião, o molho carimbó, o molho batuque , e, claro o meu molho predileto “o molho ROCK’N ROLL”. Então, em uma bela noite, visitando à Cidade de ARAM, descobri que haveria mudança no cardápio de diversões. Resolvi experimentar a NOITE com molho SAMBA. Novidade deliciosa, imaginei. E o molho era da melhor qualidade......tinha temperos que variavam de Adoniram Barbosa a Chico Buarque de Holanda. Quando ouvi o gosto do molho, meu corpo simplesmente enlouqueceu. Era como se não conseguisse conter meus pés que queriam dançar sozinhos. Foi difícil controlar, porque me senti como uma palmeira às margens da praia em manhã de ventania. Como não se balançar com o vento? Observei que as pessoas estavam gostando do molho Samba, mas pareciam ter receio de comer. Metaforicamente falando, é como se você tivesse com muita fome, chegasse o prato principal e todo mundo ficasse só olhando. Entenderam? Ninguém se mexia........... Então, um rapaz faminto pelo molho samba, como eu, ousou e desafiou a plateia presente. Levantou da sua mesa e começou a dançar em frente à banda samba da melhor qualidade, SOZINHO. Todo mundo ficou pasmo. E que molejo tinha o desafiador, que ginga, que encanto.... Olhando-o dançar, a fome aumentou mais, tenho certeza. Então pensei “Agora todo mundo vai levantar e provar o MOLHO SAMBA”. Doce ilusão! Todos continuaram sentados.....alguns ousaram balançar as cabeças........bater tímidas palmas... Metaforicamente falando é como se você fosse a um restaurante, chegasse o prato principal e você só o beliscassse, comedidamente. E assim decorreu toda a noite. Somente o ousado dançarino solitário sorveu todo o molho samba. Ele dormiu satisfeito, tenho certeza. Reflito que há diferentes formas de degustar os molhos da vida. A CIDADE DE ARAM é prova disso.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

LENÇOL BRANCO COM BOLINHAS VERMELHAS- O REENCONTRO.

A mesma viagem de paisagens adormecidas, o mesmo ronco cansado e distante do motor do ônibus. Porém, desta vez, contrastando com a imensidão de alegria e segurança do meu coração. Exatamente, quando meus olhinhos puxados adormeciam nas redes dos sonhos sem explicação, ouvi, ainda meio que sonolenta, uma voz que há tanto tempo eu não ouvira. "Não pode ser"- pensei. "Devo estar sonhando". Então, pulei da rede, ou melhor, abri os olhos e pude contemplar aquelas mãos tão brancas, tão pequenas, tão dignas de poesia tocarem a poltrona atrás da minha. Como é o destino, meus amigos, implacável, enigmático e encantador. ERA ELE! o mesmo e eterno personagem dos meus contos. Fiquei horas pensando, como seria possível, eu revê-lo, tanto tempo depois, no mesmo ônibus, no mesmo percurso? A diferença era que não ele não sentara ao meu lado, eu ocupava a poltrona 13 e ele, a 15 (atrás da minha), tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Tive vontade de conversar com ele. Saber como andava a sua vida, perguntar como tinha sido o Rock in Rio, se ele ainda se intitulava um "Cidadão do Mundo". Mas, preferi ficar, discretamente, observando de longe. Percebi que ele mudara muito pouco, os mesmos cabelos tão bem penteados que nem um furacão consegue desarrumá-los; os mesmos lindos olhos azuis da cor do Pacífico Sul, a mesma voz doce e encantadora que se tornou inesquecível aos meus ouvidos. Ele estava ali tão perto.....uma poltrona atrás da minha....tão perto..... Meu coração dizia "Olha para trás, diga Olá..quanto tempo..."- Ah! esse meu coração. Ele era o mesmo, mas eu percebi que EU havia mudado. Resolvi ouvir a voz da razão. Inacreditável! Decidi deixá-lo lá, na mesma poltrona que eu o conheci há algum tempo. E que me fez eternizá-lo nos meus contos. Descobri, que pessoas como ele são como a Criatura para o Criador. Ele é meu personagem, o mesmo que me fez escrever o conto "Lençol Branco com Bolinhas Vermelhas", o mesmo que me fez tanto querer sua companhia, nem que fosse como amigo. Ele ainda, e acredito que SEMPRE, será alguém muito especial no meu coração. Contudo, dessa vez, decidi me manter em silêncio, não porque tive medo ou por timidez. Contudo, porque descobri que há pessoas que devem habitar só os nossos sonhos. Então, deixei-o ir. Ainda o vi descendo do ônibus, dessa vez, sem lençol branco com bolinhas vermelhas..... Acho que porque o lençol branco com bolinhas vermelhas só existiu na minha doce imaginação. Então, Senhor Cavaleiro da Estrela de Santiago, saiba que você continua guardado em uma poltrona com visão privilegiada no meu coração. Com você, eu não preciso falar, basta-me sentir.

domingo, 10 de junho de 2012

DIA DOS NAMORADOS (sem namorado)

Quando eu ouvia “ E todos dançam pega estica e puxa....E viva a Festa da Xuxa”, o dia Dos namorados não tinha muito sentido para mim. Lembro-me só das lojas decoradas com corações vermelho-sangue. Essa lembrança me faz refletir o quanto o símbolo e a cor das paixões dilacerantes já me encantavam. Quando eu passei a ouvir “ Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão, sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão”(Engenheiros do Havaí), descobri que além de as nuvens não serem de algodão, havia sentimentos estranhos por pessoas desconhecidas que , de repente, tomavam conta do nosso coração como saqueadores destemidos. Assim, sem pedir licença. E...timidamente, passei a querer viver, ao lado dessa pessoa que habitava os meus sonhos mais secretos, um “Dia dos Namorados” Então, seguindo o ciclo da vida, comecei o ouvir “E o que foi prometido/ ninguém prometeu/ nem foi tempo perdido/SOMOS TÃO JOVENS” (Legião Urbana). Nessa fase, passei a IDEALIZAR o Dia dos namorados. Era uma necessidade que eu precisava viver. Vital, como respirar. Um direito a ser conquistado. E não é que conquistei esse DIREITO! E vivenciei meu primeiro DIA dos Namorados, com namorado, ouvindo “Migalhas dormidas do seu pão/raspas e restos me interessam” (Cazuza). O importante não era refletir sobre o que eu estava vivendo, o relevante era que eu pertencia à tribo dos que tinham namorado. E lá se foram 6 anos da minha vida, ouvindo “Sempre precisei de um pouco de atenção/Acho que não sei quem sou/só sei do que não gosto/nesses dias tão estranhos/fica a poeira se escondendo pelos cantos” (Legião Urbana). Mas...eu vivi, todos esses anos, o Dia dos Namorados, com namorado. Não era isso que importava? Um dia acordei cantando “Ideologia, eu quero uma para viver” (Cazuza). Senti-me forte, diferente, peguei as malas e, literalmente, fui estudar na capital ouvindo “Nem tudo é como você quer/nem tudo pode ser perfeito/ pode ser fácil se você ver o mundo de outro jeito” (Capital inicial). Embora olhando e me posicionando no mundo de outra forma, o Dia dos Namorados, com namorado, ainda era dia fundamental na minha existência. Então, eu, meio sem querer, comecei a cantar “Foi assim como ver o mar/a primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar/não tive a intenção de me apaixonar”. E quando eu menos esperei, o AMOR me vencera. E assim se passaram 8 anos, vivendo cada Dia dos Namorados ao lado da pessoa que mais amei nessa vida. Lembro que eu ouvia “Eu nunca mais vou respirar, se você não me notar/eu posso morrer de fome, se você não me amar/ por você eu faço tudo/vou mendigar, roubar, matar/até as coisas mais banais/para mim é tudo ou nunca mais” (Cazuza). E eu vivi e quase morri de tanto amar. Porém, decidi não morrer de AMOR. E ...optei por vivenciar a mais paradoxal das dores “deixar quem você ama, amando e sendo correspondida”. Optei pela solidão. Mas, estava chegando o Dia dos Namorados. E era fundamental que eu tivesse um namorado. E tive. Durante quase 3 anos, ouvimos juntos ”Quando estiver triste, simplesmente, me abrace/quando estiver louco subitamente se afaste...Mesmo que o mundo acabe enfim/dentro de tudo o que cabe em ti”. (Skank). Foram os Dias dos Namorados mais tranquilos da minha vida. Todavia, o encanto acabou....E agora? E o Dia dos namorados do ano de 2010? Como eu ia passar uma data tão fundamental sem um namorado? Então, o antigamente tão esperado, mas agora temido 12 de junho de 2010 chegou. E eu estava só, ouvindo ”E quase o ano inteiro os dias foram noites, noites para mim/ seu sorriso se foi/minha canção também/ e eu jurei por DEUS não morrer por AMOR e continuar a Viver” (IRA). Lembro-me que nesse Dia dos Namorados, eu nem queria sair à rua. Afinal, eu queria compartilhar da magia desse dia. Mas isso era impossível, estando tão só. Até então eu achava que passar o Dia dos namorados, sem namorado, era sentença de morte. Por isso, dormi e levei o maior susto quando acordei no dia 13 de junho. Abri os olhos e pensei “Como assim??!! Não morri??!! Meu Deus! Estou vivaaaaa! . (Logo, acreditem, todo mundo sobrevive a um Dia dos Namorados, sem namorado) No outro ano, no dia 12 de junho, como descobri que Dia dos namorados, sem namorado, não mata ninguém, eu sai de casa, mas só conseguia ouvir essa música “Qual o segredo da Felicidade? Será preciso ficar só para se viver?” (Kid Abelha). Hoje, estou aqui escrevendo sobre o Dia dos Namorados, sem namorado. Vejam que ironia! Afinal, logo eu que sou tão romântica, eu que falo e defendo tanto o AMOR. Vocês devem estar se perguntando “que música estou ouvindo esse ano?”. Hoje ouço “Meu caminho é cada manhã/não procure saber onde estou/meu destino não é de ninguém/eu não deixo os meus passos no chão”(Capital Inicial). Perceberam a mudança na letra da música da minha vida? Logo, nesse 12 de junho de 2012, quero desejar “Feliz Dia dos Namorados” a todos nós que amamos e somos amados. Afinal, namorar é muito mais que ter namorado. Namorar, já dizia Drummond, é “querer tomar sorvete em dia de chuva”. Namorar é se AMAR. É conviver com você mesmo e se sentir bem com sua presença. Felizes os que, nesta terça-feira podem dizer a seus namorados o quanto amam. E poder ouvir que são amados também. Mas, Felizes também somos nós que amadurecemos o suficiente para compreender que o “Dia dos namorados” é nosso também, porque nos amamos tanto que nossa FELICIDADE comunga com todos os casais apaixonados. Essa é a verdadeira energia do UNIVERSO DO AMOR. Amar uns aos outros, Namorar a nós mesmos e a Vida, SEMPRE- Esse é o segredo da FELICIDADE. Feliz Dia dos Namorados para todos nós que NAMORAMOS essa “Vida louca vida/vida breve/já que eu não posso te levar/quero que você me leve”(Lobão)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Borboletas do Ar-condicionado

O peixinho do aquário sempre nadava mais entusiasticamente quando a dona da casa chegava. Perecia que a luz do sol se fazia mais insistente na sala de estar quando ela cantava as músicas que eram sempre saudades da Terra do Açaí. O vaso com rosas azuis era o encanto enigmático dos visitantes. E o bolo de abacaxi que ela preparava todos os sábados representava a doçura do sentimento que ela nutria na timidez devoradora do seu coração. Como era feliz a dona daquela casa com varanda que vislumbrava o lago e as serras. Mas, há um Ditador que sempre transforma todo o enredo da vida. Aquele parecia o mesmo sábado de toda semana. A mesma espera ansiosa e solitária para que o silêncio de vozes e de almas fosse rompido. O mesmo amor que enaltecera, ferira e destruíra todos os casulos de esperança para que aquelas duas vidas se tornassem uma só. Quando a porta se abriu, os Olhos Verdes buscaram o olhar que se escondia naquelas pupilas escuras envoltas em varandas puxadas como nas casas de praia. Todavia, ela devotava nos seus olhos a paisagem de uma canoa naufragada no Rio Amazonas . Tudo já havia sido conversado, as malas dele estavam prontas. Ela se limitou a não querer vê-lo partir. Ouviu sons dos passos dele misturarem-se com soluços indefinidos das almas dos dois amantes. A porta se fechou e ela sentiu que cada gota do sangue que pulsava nas suas veias seguiam um caminho angustiado para o seu coração. Sentiu sufocar-se. Intencionou pedi-lo para ficar, afinal ,ela pedira para que ele partisse. Mas nessa batalha épica, os bárbaros sentimentos lançaram tantas flechas no seu peito que ela sentiu-se desfalecer. A sala ficou muda. A vida ficou em silêncio. Um silêncio que mortificava sua existência. Ela sentou-se no sofá de frente para sacada de cortinas douradas de onde se visualizava o lago e as serras. O relógio da sala parou naquele dia do mês de outubro. As rosas azuis do vaso vermelho tentaram conversar com ela durante muitos dias, até serem desfaceladas pelo vento do tempo. Uma das pétalas ainda beijou em despedida o rosto da dona da casa, antes de ser levada para correr com as gotinhas de chuva, em um desses temporais de fevereiro na cidade do eterno sol do meio dia. O peixinho do aquário resolveu aventurar-se pelo mar, mas teve o cuidado de deixar um bilhete de despedida escrito na última pétala de rosa azul que insistira em ficar deitada sobre a mesa. Nunca mais se sentiu o cheiro do bolo de abacaxi que assava ao som das melodias que ela cantava. Em um desses outubros, no feriado das crianças, bateram à sua porta. Há quanto tempo ela não esperava alguém? O relógio da sala continuava parado quando a visita entrou, sentou ao seu lado no sofá e conversou o suficiente para que ela sentisse uma tranquilidade emanada daquela voz que transmitia toda a confiança que ela precisava para se levantar. Ele lhe trazia notícias do mundo. Contou-lhe que os aviões nem sempre decolam no prazo esperado, por isso a fadiga existencial . Disse-lhe que nas noites daquele mês, a casa dele costumava ser visitada por besouros tão estranhos que pareciam monstros pré-históricos. Ela, então, sorriu diante daquela misteriosa e imprevisível visita do mês rosa. Pareciam tão agradáveis as palavras que ele dizia, tão encantadoras que ela queria conversar a noite inteira. Foi quando a última pétala de rosa azul voou lentamente para ouvir aquela conversa mais de perto. Contudo, nessa viagem ousada, um vento que era apaixonado pela pétala azul tentou raptá-la. A pétala assustada não queria deixar a dona da casa sozinha. Por isso, lutou contra o vento e se escondeu dentro do ar condicionado. A dona da casa impressionada observava a mais essa história de amor. E, temendo pela sorte, pediu à visita que libertasse aquela pétala azul. Foi quando ele, sem temer ou tituberar, tirou a tela do ar condicionado e libertou a pétala azul que voou e voltou ofegante para o vaso vermelho que estava em cima da mesa. Quem sabe se algum dia ela se sentirá mais segura e resolva viajar com o vento. Contudo, isso já é outra história para contar. A dona da casa ficou tão feliz com esse pensamento. Nesse exato momento, a visita se despediu, sem dizer se havia gostado da conversa e sem promessas de voltar. Ela o levou até a porta e planejou dizer tanta coisa, entretanto, ela simplesmente sorriu, acreditando que havia conseguido expressar toda a tranquilidade que a presença dele houvera causado. Ele descia as escadas enquanto os olhos da dona da casa se voltaram para observar que o relógio da sala voltara a funcionar. Ela olhou o calendário, quase três anos havia se passado. Meu Deus! Todo esse tempo sentada ali? Teve medo de pensar em viver diferente. Teve medo de voltar a sonhar. Mas, em um desses mistérios do Mundo de Lorelai, o sinal de que já era de voltar a viver se materializou. De repente, da tela do ar-condicionado voaram borboletas de todas as cores. Como ela voltou a se sentiu feliz! Era seu presente de aniversário. A dona da casa pediu para que eu escrevesse esse conto para agradecer à visita, porque se ele não tivesse resgatado a pétala azul da tela do ar condicionado, ela nunca iria perceber que a limpeza da alma e das lembranças fazem nascer e bailar borboletas em nossas vidas.

A formiga e o inseto – Uma história de jardim.....

A menina sentou na soleira da porta e, escondida dentro de si, ficou observando essa história que ela me pediu para contar. De trás de um galho de jasmim, que caíra no chão porque perdera uma queda de braço com o vento de setembro, apareceu um inseto bem magro, com imensas asas, pernas bem longas e com olhar desencontrado como ondas do mar no litoral. Mas de uma imponência tão encantadora que a menina quis se deter mais cuidadosamente nesse olhar. Repentinamente, uma gota de orvalho do sereno da aurora foi se desfazendo lentamente, permitindo com que a menina visualizasse uma formiguinha que pensativamente se aproximava. Ela carregava um embrulho dez vezes maior que seu peso. Interessante que, ao olhar aquela pequena senhorita no meio das folhagens, era impossível mensurar o que era maior, se o embrulho que ela carregava ou se a vastidão dos seus pensamentos. Seja como for, ela parecia tão feliz e sorridente. Quando a formiguinha se aproximou do inseto tão imponente e de pernas tão longas, ela parou para lhe contemplar como quem busca decifrar algum mistério. Foi exatamente quando ela conseguiu mergulhar no negrume do olhar daquele inseto que parecia tão fadigado, sentiu que ele tinha um céu cheio de tantas estrelas de todas as cores e idades. Contudo, mesmo com esse universo tão estrelado, ele insistia em voar sem se importar com as estrelas ou com a lua, limitando-se em voos de mãos dadas com a Solidão. A formiguinha se sensibilizou com o que viu naqueles tão negros e tão distantes olhos. Por isso, resolveu iniciar uma conversa tímida, com uma voz meio trêmula e cheia de medo de alguma reprovação. Ela, então, contou para o imponente inseto as mais belas e engraçadas histórias que ela conhecia. Foi quando ele sorriu tão estridentemente, que ela teve a certeza de que ele estava descansando sua alma e tinha pedido para a Tristeza ir tomar um cafezinho na esquina. A formiga sentiu que aumentava ainda mais os pensamentos que ela carregava. Começou a imaginar que os dois poderiam ser amigos. Por que não? Parece que ele adivinhara seus pensamentos, pois combinaram de se encontrar, no outro dia, naquele mesmo local. Despediram-se e a Formiga seguiu pensando tão comprido....... No outro dia, ela voltou ao local combinado e o inseto bem magro, com imensas asas, pernas compridas e olhar desencontrado como onda do mar do litoral apareceu. Como ela ficou feliz! Mas ele mal a cumprimentou e foi embota tão rápido que ela nem teve tempo de lhe dar o presente que havia pensado a noite toda, com tanto carinho. Sem entender o porquê de tamanha pressa, ela sentiu encurtar os seus pensamentos e seguiu o caminho do seu destino, por entre as folhas caídas que pareciam se tornar verdes só para alegrá-la. Mas antes de continuar seu destino de formiga pensativa e cheia de sonhos de ser borboleta, ela sentiu que o peso que carregava havia se tornado mais leve. Afinal, ela havia deixado para o inseto, de comportamento tão indecifrável, o pequeno presente embrulhado em papel amarelo da cor do ouro. Deixou-o bem debaixo de uma flor de jasmim adormecida. O que havia dentro do presente? Ela deixara gotinhas cristalizadas de açúcar para que ele tornasse sua vida mais doce, juntamente com a luz do coração de um vaga-lume para que ele nunca mais voasse na escuridão solitária. Quem sabe algum dia ele volta para buscar o presente? – Pensou nossa amiguinha. Contudo, acredito que ninguém nunca ficará sabendo o final dessa história. Tudo porque a menina que estava sentada na soleira da porta e observava tudo, ficou tão decepcionada com a atitude do inseto que se levantou e fechou a porta que dava para o jardim, para nunca mais abrir.

O VOO DA ILUSÃO

Na cidade de luas suicidas, parecia que a música de feriado me faria bailar a mesma dança solitária das noites de lágrimas, paixão e sonhos. Eu, sempre intensa, dialoguei com aquela noite negra e desafiadora. Afirmei que, definitivamente, não queria a previsibilidade. Queria o sonho, o voo da serpente- borboleta rumo ao infinito de desejos que clama minha alma de poetisa. Buscando viver grandes amores impossíveis que habitam meu imaginário de sentimentos, fazendo-me, diariamente, padecer de amar. Quando o vi chegar, comparei-o a Adamastor, o gigante de pedras camoniano. Sua altura, sua sisudez, seu silêncio encantador, seu olhar de farol solitário de uma deserta praia paraense. Realmente uma beleza mitológica, por isso digna somente de ser contemplada a distância. Mas pergunto a vocês? Como ficar distante do que nos atrai? No baú dos sentimentos inerentes ao meu ser, busquei a coragem para olhá-lo nos olhos, mas ela havia saído para um passeio em Taquaruçu. Como sempre, a timidez e a insegurança foram os únicos sentimentos que me abraçaram e se dispuseram a me fazer companhia naquela rua com nome de presidente. A simples presença muda dele naquele lugar fez com que tudo se transformasse em uma harmônica euforia que me fazia sorrir com o simples murmurar do vento que anunciava a madrugada. Quando ele se sentou comigo à mesa, optei por não refletir se aquilo era sonho ou realidade. Deixei-me, simplesmente, debruçar naquele encantamento sedutor que insistia em me fazer acreditar no impossível. De repente, no auge da minha timidez, as palavras pareceram fugir dos meus sentidos. Fez -se, entre nós, o silêncio que inebria os olhos do coração. Desviei o olhar para o céu, talvez buscando um assunto com as estrelas. Foi quando olhei para a constelação de Ursa maior e vi Ci, a mãe do mato que estava namorando Macunaíma. A estrela então sussurrou no meu ouvido. Dispus-me somente a comentar com ele “Linda Lua”. Imediatamente, ele respondeu “quer tocá-la?” E, em um desses devaneios que só existem no Mundo de Lorelai, ele entrelaçou suas mãos com as minhas e me convidou para fazer a viagem. E, como ele houvera me informado que a cabine fazia frio, cobri-me com meu lençol branco com bolinhas vermelhas antes de partirmos. Ele pilotou um P-51 Mustang, o mesmo avião americano utilizado na II Guerra Mundial. Literalmente ele me fez voar entre as estrelas. Contou-me dos seus desejos e, definitivamente, seduziu-me quando disse que sempre voava conversando com a Lua. E deixou que eu a tocasse, de forma tão leve, que fez com que eu acreditasse que há pessoas que, literalmente, fazem- nos sentir no ar. Mas TUDO foi tão rápido que nem tive tempo de dizer que aquela tinha sido a viagem de avião mais interessante que eu havia feito. Se não vou poder dizer o que senti pessoalmente, eternizo nesse conto o meu VOO DE ILUSÃO.

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Elienai Lorelai
Sou alguém que brinca com as palavras para redimensionar fatos da realidade. Afinal, a VIDA é muito mais linda com um toque de literatura e poesia. Boa leitura a todos!
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